Massa flutuante de Sargassum no Oceano Atlântico. Fonte: OOL - University South Florida.
Nos últimos anos, o mundo tem acompanhado com
apreensão um fenômeno que cresce em escala e intensidade: os cinturões de algas
que se acumulam em regiões costeiras, ameaçando ecossistemas, atividades
econômicas e até a saúde humana. A notícia recente sobre o cinturão recorde de
sargaço no Atlântico — com risco de atingir praias do Norte e Nordeste do
Brasil — traz à tona uma preocupação que já começa a se materializar também no
litoral piauiense.
O Delta do Parnaíba e as praias do Piauí, como Luís
Correia e Cajueiro da Praia, não estão imunes a esse processo. Pesquisadores da
Universidade Estadual do Piauí (UESPI), liderados pela Dra. Maria Gardênia
Sousa Batista, que pesquisa algas na região há pelo menos 25 anos, já
observaram a chegada de espécies dos gêneros Sargassum e Cladophora nessas
áreas. Trata-se de um alerta que conecta a realidade local a um fenômeno
global.
Pesquisadoras visitando praias piauienses. Dra. Maria Lannari (UFRG) - de preto; Eng.Amb. Paula André - de azul e: Dra Gardênia Batista (UESPI). Foto: Arquivo pessoal Dra. Gardênia Batista.
Algas marinhas são organismos fundamentais nos
oceanos: produzem oxigênio, servem de abrigo para peixes e invertebrados, e
fazem parte da base da cadeia alimentar marinha. Contudo, em determinadas
condições, podem se multiplicar de forma descontrolada. É o que acontece com os
chamados “marés verdes” e “marés douradas”, compostas por grandes massas de
macroalgas flutuantes, como espécies dos gêneros Ulva e Sargassum.
Segundo a Dra. Marianna Lanari, do Instituto de
Oceanografia da Universidade do Rio Grande, essas algas de deriva podem
desempenhar papel ecológico positivo, funcionando como refúgio e fonte de
alimento para organismos marinhos. Mas, em excesso, formam conglomerados
espessos que alteram a dinâmica costeira, reduzem a entrada de luz na água,
geram condições de anóxia (falta de oxigênio) e liberam compostos tóxicos,
inclusive gases de efeito estufa.
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| Algumas das algas encontradas já correspondem a espécies da massa flutuante. Fonte: Arquivo pessoal (Dra. Gardênia Batista) |
Casos como a “Maré Verde” de Qingdao (China, 2008)
ou os acúmulos de algas na Bretanha (França, 2009) já mostraram o potencial de
causar prejuízos à pesca, ao turismo e à saúde pública.
Por que o Piauí está em risco?
O litoral do Piauí é pequeno em extensão, mas de
enorme relevância ambiental e econômica. O Delta do Parnaíba, único delta em
mar aberto das Américas, é berçário de inúmeras espécies marinhas e importante
atrativo turístico. A chegada massiva de sargaço poderia impactar:
- Ecossistemas sensíveis: os bancos de algas competem
com a vegetação aquática local, sufocando habitats costeiros e alterando a
biodiversidade;
- Pesca artesanal: redes podem ficar obstruídas, e
espécies de interesse econômico sofrem com a degradação de seus refúgios;
- Turismo: praias cobertas por algas em decomposição
perdem sua atratividade, além do mau cheiro gerado pela liberação de gases como
o sulfeto de hidrogênio (H₂S);
- Saúde pública: a decomposição libera compostos que
podem provocar dores de cabeça e problemas respiratórios em populações
costeiras.
Os fatores que intensificam esse fenômeno estão
relacionados às mudanças climáticas: aumento da temperatura da água, alteração
do regime de chuvas, maior aporte de nutrientes e acidificação dos oceanos.
O monitoramento realizado por equipes locais já
aponta a necessidade de maior atenção. Tanto a comunidade científica quanto
órgãos ambientais devem atuar em conjunto para acompanhar a dinâmica das algas
e propor soluções.
Uma das alternativas em discussão é o aproveitamento
sustentável dessa biomassa algal. De acordo com especialistas, o sargaço
poderia ser utilizado na produção de biocombustíveis, carvão, bioplásticos e
até na indústria têxtil. Assim, aquilo que representa ameaça pode se tornar
também recurso — desde que haja tecnologia e políticas adequadas.
Uma ameaça real para o Piauí
O avanço do cinturão de sargaço no Atlântico é um
lembrete de que fenômenos globais não respeitam fronteiras. O litoral
piauiense, embora pequeno, possui grande vulnerabilidade diante desse risco. O
Delta do Parnaíba, com sua biodiversidade singular, e as praias turísticas da
região podem sofrer impactos ecológicos, sociais e econômicos significativos se
o fenômeno se intensificar.
Por isso, ciência, políticas públicas e
conscientização da sociedade precisam caminhar juntas. O mar de algas que se
aproxima pode ser tanto uma ameaça devastadora quanto uma oportunidade de
inovação sustentável. O futuro do nosso litoral depende das escolhas que
fizermos agora.
Por Francisco Soares Filho | cidadeverde