terça-feira, novembro 23, 2021

Macy Freitas sofre racismo ao participar de concurso de beleza negra

Jurado disse que estudante não poderia ganhar concurso por ser "morena" e não negra.

Macyrajara Freitas. (Foto: Arquivo Pessoal)
A estudante de Administração, Macyrajara Freitas, de 20 anos, foi vítima de racismo após participar de um concurso que tinha como objetivo exaltar a beleza negra. O evento, que aconteceu no último sábado (20), na cidade de Luís Correia, no litoral do Piauí, e fazia parte do calendário em alusão ao Dia da Consciência Negra, foi marcado pelas falas consideradas racistas de um dos jurados e gerou revolta na pessoas que acompanhavam o desfile.

A miss relata que disputou com outras sete concorrentes e ficou em segundo lugar. Logo após o resultado, um dos jurados pediu o microfone e teria tentado argumentar para o público que Macyrajara não havia levado o maior prêmio por ser "morena" e não negra, por ter o cabelo liso. "Na hora que a Macyrajara entrou, eu falei: ela não é negra, é morena. Existe a diferença da negra pra morena, a morena tem o cabelo liso e ondulado. E os meninos a mesma coisa, existe o negro com o cabelo afro e existe o moreno", disse o jurado em um vídeo gravado no dia do desfile.

A estudante afirma que se sentiu discriminada pelos comentários feitos pelo jurado. Mesmo constrangida, a jovem diz não ter conseguido reagir às declarações e teve de ser defendida pelos familiares que também estavam presentes no evento. Com experiência em concursos de beleza, a miss revela nunca ter passado por uma situação semelhante. 

"Eu fiquei sem entender, me perguntando se era mesmo aquilo que estava acontecendo. Todas mereciam ter ganhado, não só pelo cabelo, cabelo não define nada. Estavam julgando a beleza negra e não o cabelo de ninguém", destaca.

Macyrajara lembra que esse não foi o primeiro caso de racismo que sofreu, mas o fato de ter ocorrido em um evento com a presença de dezenas de pessoas, a fez se sentir impotente. "Me senti triste pelo meu povo porque eu tenho certeza que não foi só eu que senti, até porque a população toda se revoltou, aquele recado não foi só pra mim. Já sofri racismo, eu sofro racismo toda hora, mas não nesse nível, pra cidade toda ouvir", lamentou.

A fala do jurado incorre na discussão a cerca do colorismo, termo utilizado para diferenciar várias tonalidades da pele negra, do tom mais claro ao tom mais escuro, bem como tipificar as características que seriam inerentes à pessoa negra, caracterizando como "não negro" aquelas que mais se assemelhariam ao branco. Pela ótica do colorismo, para se enquadrar como negro, além da cor da pele mais escura, a pessoa também precisaria ter determinados traços físicos. Por isso, o colorismo é considerado como uma forma de preconceito racial.

Prefeitura repudia fala de jurado

A Prefeitura Municipal de Luís Correia se manifestou sobre o ocorrido e saiu em defesa da estudante Macyrajara Freitas. Em nota, o órgão classificou  o caso como preconceito racial e "tentativa de tipificação e padronização da beleza de pessoas negras". 

"Discursos como este, proferidos na noite de ontem (20), não representam de forma alguma o entendimento da organização da "I Semana da Consciência Negra" e do "Concurso Beleza Negra 2021", que do planejamento à realização do evento, objetivou proporcionar à sociedade luiscorreiense o conhecimento sobre a história e a triste realidade racista estrutural vivida e enfrentada pelo povo negro neste país", disse a prefeitura.

A prefeitura destacou ainda a importância de nos posicionarmos contra atos que buscam padronizar e tipificar a diversidade, a beleza e o próprio negro e buscarmos entender as reivindicações históricas do movimento negro. "Assim, pessoas brancas poderão entender definitivamente que o racismo estrutural se manifesta não somente através de xingamentos ou agressões físicas, mas também quando um não negro se apropria de um lugar de fala que não lhe pertence para nomear, caracterizar ou definir o negro", disse.

O órgão finalizou ainda defendendo que na sociedade em que vivemos não basta não ser racista, é preciso promover o antirracismo. "Ressaltamos que esse foi o propósito fundamental do evento realizado e que continuaremos promovendo, no âmbito da cultura e das demais instâncias da administração municipal, o combate direto a toda e qualquer forma de discriminação", finalizou a nota.

Por: Nathalia Amaral / Portal o Dia

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