sexta-feira, março 27, 2020

Diante do mundo: a consciência triste da fragilidade humana!

Prof. Dr. Geraldo Filho
É claro que quando escrevo em um dos principais veículos de comunicação do litoral do Piauí assumo o papel de intelectual público, que leva para fora do mundo acadêmico o conhecimento produzido ali. Evidentemente isto aumenta a responsabilidade, pois as teses (ideias) que são abordadas têm o objetivo de fornecer para quem as lê maneiras de compreender a vida que, talvez, favoreçam a tomada de decisões sobre como agir ou pensar em sociedade.

Por outro lado, asseguro que as teses seguem com rigor a realidade, por isso às vezes pareçam revestidas de alguma crueza. No entanto, penso que em ciência seja mais adequado lidar com a frieza dos fatos do que com a utopia da ficção.

Meus alunos de Administração e Contábeis desse semestre há cinco aulas (antes da interrupção pela pandemia) vêm tomando uma dosagem cavalar de realidade socioantropológica, portanto, espero minimamente que estejam capacitados para entender o entrelaçamento entre política e economia, entre sociedade e mercado, tecido em torno do individuo e da luta incansável pela conquista dos seus interesses.

A beleza da teoria liberal, que foi se construindo junto com o capitalismo das sociedades industriais, está na aproximação que suas teses (filosófica, política e econômica) fizeram do indivíduo com a natureza, de modo que a sociedade contemporânea fosse a expressão mais elaborada em termos de complexidade institucional da organização natural: a teoria reconhece os condicionantes genético (biológico) e cultural (social) sobre o indivíduo ao mesmo tempo em que resguarda a possibilidade latente de sua singularidade, por onde se manifesta a individualidade, em conflito com os limitantes de sua existência.

Ao colocar no centro da análise o indivíduo a teoria aceita humildemente o potencial de sofrimento que lhe é característico, pois tem consciência de que a garantia da manifestação da individualidade leva a um poço sem fundo de desejos (Émile Durkheim) que ele descobre dentro de si (que jamais serão integralmente realizados!).

Aqui há um encontro com a boa teologia cristã – vale lembrar que o iluminismo inglês (Hobbes, Burke, Locke, Smith, Stuart-Mill) que gerou o liberalismo nunca foi anticlerical, como o francês –, pois esta individualidade desejante remete ao pecado de Adão e Eva, que renunciaram a integridade do Paraíso (onde nada precisavam) e ao convívio com Deus em troca da indeterminação do conhecimento e da luta pela sobrevivência (o afloramento do desejo e da necessidade), por isso seus descendentes anseiam, sofrendo, pela reconciliação com o Criador.

Portanto, tendo em vista a imperfeição humana cabe à teoria reduzir os danos das frustrações com a vida chamando a atenção para a inexistência de um mundo ideal. Isso começa quando se deixa de lado as tagarelices de Jean-Jacques Rousseau sobre o homem que nasceu inocente e bom e foi corrompido pela sociedade e no seu lugar se coloca Thomas Hobbes, que enxerga o homem como ele é, desprovido de idealismos e promotor de conflitos ao lutar pelos desejos e necessidades!

A peleja pelos desejos e necessidades é a expressão humana do instinto de sobrevivência, herança do passado animal, que facilmente se transforma em disputas brutais por recursos escassos, o que retorna o homem ao que Hobbes chamou “estado da natureza” e torna inviável a vida coletiva, que tem como precondição a ordem e a paz.

No entanto, a precondição para a vida social conseguiu se estabelecer e ajudou a forjar sociedades, ou seja, a ordem e a paz são a expressão humana do instinto de poder. A face real do que apresento como teoria os indivíduos conhecem historicamente como “Estado”, de monarquias a repúblicas.

Então, segundo a teoria liberal, tem-se um indivíduo que apesar das correntes que lhe prendem à sociedade (grupo social de origem) é ao mesmo tempo livre para desejar e externar vontades, porém, como vive em comunidade com outros (o que eleva a possibilidade de choque de interesses na disputa pelas mesmas coisas) se faz necessário o exercício do poder e a vigência da ordem, de modo que todos possam em termos razoáveis ter desejos e necessidades atendidos.

Mas o que são esses desejos e necessidades? Aqui se chega a constatações desconcertantes! São as vontades individuais por afetos em geral e mercadorias variadas (bens e serviços), que serão providas por uma intensa relação de trocas emocionais e materiais que caracterizará a vida em sociedade desde a origem. Com efeito, aquilo que um dia será conhecido como mercado evoluiu como resultado da progressiva integração da espécie humana em sociedades cada vez mais complexas. Assim, mercado e sociedade se confundem, são a mesma coisa! A teoria liberal procura explicar a inter-relação entre o indivíduo que deseja dentro de um coletivo (conflito em potencial) e a modulação possível da satisfação dessa vontade egocêntrica feita pelo Estado e o mercado.

Nos últimos 200 anos o mundo contemporâneo assim constituído sofre com catástrofes sucessivas, guerras, crises econômicas, cataclismas naturais ou pandemias. O coronavírus (COVID 19) é mais uma, porém com capacidade destrutiva magnífica, pois atinge de uma só vez, em todo o planeta, a liberdade do indivíduo de trabalhar e se locomover; a capacidade dos governos de proteger os cidadãos (dado à novidade do vírus e a incerteza da melhor estratégia para vencê-lo); o funcionamento dinâmico dos mercados, responsáveis pelos empregos e impostos, além da sobrevivência de todos os humanos.

É preciso compreender esse entrelaçamento banal que o vírus ao atacar expôs para os indivíduos, que provavelmente nunca pararam para refletir que o seu cotidiano, desde o momento que ele acorda até voltar novamente a dormir à noite, foi preenchido nos mínimos detalhes pela relação Estado e mercado. O Estado garante a ordem e a paz, o mercado provê os desejos e necessidades!

Faça uma lista do que você estava usando ao acordar (roupas, cama, rede, lençol, etc.) até o instante em que você se levantou da mesa do café. Você nem saiu de casa e já utilizou de bens e serviços produzidos por milhares de pessoas que você nunca viu e provavelmente nunca conhecerá, no entanto elas lhe vestiram, lhe deram conforto para dormir, propiciaram energia para os eletrodomésticos que você usou, a água do banho, o chuveiro, a pia, o vaso sanitário, o espelho, a escova e pasta de dentes, o sabonete, a toalha, o pente, o vestuário, os calçados, o café, o leite, o pão, o queijo, a manteiga...

A produção dessas milhares de pessoas distribuídas em funções (empregos) organizadas em empresas (que têm um nome de fantasia, uma personalidade jurídica) que atendem seus desejos e necessidades desde a ora que você acordou formam uma pequena fração do mercado... e você ainda nem saiu de casa! Imagine agora anotar até o fim do dia, quando novamente voltar a dormir, a quantidade de pessoas e empresas que remotamente participaram dele garantindo sua satisfação e bem-estar, é uma tarefa quase impossível, principalmente se você projetá-la para todos os dias da sua vida!

Bem, eis o mercado, você não precisa pensar sobre ele, pois na verdade é a sua própria existência, pois com um pouco de criatividade e imaginação perceberá que é ele quem faz a mediação de todas as relações sociais, inclusive àquelas que envolvem as trocas afetivas em uma sociedade aberta e livre como as ocidentais, na qual o Brasil se inclui. Esta é a fusão entre mercado e sociedade, a qual me referi, que as sociedades capitalistas realizaram apagando a diferença entre natureza e cultura.

Os críticos utopistas e revoltados (normalmente frustrados com fracassos em suas vidas, ou por não aceitarem a imperfeição do homem!) de Rousseau a Marx, até os herdeiros esquerdistas da atualidade, consideram a coincidência entre mercado e sociedade um rebaixamento da condição humana, de sua dignidade idealista e outras tolices sem correspondência com a realidade. Esta postura é responsável por comportamentos hipócritas e estranhos, quase esquizofrênicos de, por exemplo, alguns profissionais da saúde e professores universitários que condenam o capitalismo mas não se envergonham de suas clínicas caras, casas de luxo, carros caros, celulares e computadores de última geração todos produzidos por: empresas capitalistas!

Vejam, portanto, que propostas radicais de quarentena do tipo isolamento social como estratégia de combate ao COVID 19, colocando em casa milhões de indivíduos que são a energia vital das cadeias produtivas de bens e serviços espalhadas pelo mundo, o mercado, que dão vida às sociedades é matar a própria sociedade, na medida que um é o outro. Não há separação! Quando escuto do presidente da Câmara dos Deputados a afirmação de que “no momento o importante é preservar vidas e não a economia” de imediato concluo por dois lados: ou Rodrigo Maia é um idiota irresponsável a ponto de pronunciar esta aberração pantagruélica (e presumo que não seja); ou aproveita as câmeras de TV para aparecer, com pose de preocupado com os pobres, fazendo da sua frase um sofisma (mentira proposital) barato! Aliás, um e outro lado formam o comportamento padrão dos oportunistas (Dória, Witzel), esquerdistas (torcendo pelo fracasso da economia, por causa de interesses eleitoreiros) e ingênuos (homes e mulheres que dão faniquitos diante dos desafios da vida e da verdade, chorando nas redes sociais arrependidos por terem votado na direita, revelando mentalidade frágil e infantil).

O que tudo indica é que a quarentena (horizontal e vertical) como remédio deve ser adotada caso a caso e durante determinado período, dependendo das características espaciais, populacionais, etárias e de renda de cada sociedade específica. Assim, em países como o Brasil (de grande população, território continental e a existência de segmentos socioeconômicos vulneráveis ao desemprego e a baixa renda), ela deve ser dosada, começando com isolamento geral (horizontal) de todas as camadas sociais e depois evoluindo gradualmente para o isolamento dos grupos de risco (vertical), prioritariamente os indivíduos acima de 60 anos.


Quando o governo propõe mudança de estratégia na aplicação da quarentena ele leva em consideração a relação intrínseca entre Estado e economia, pois sabe que numa sociedade como a brasileira os efeitos de uma gravíssima crise econômica, com a perda de milhões de postos de trabalho, são mais deletérios (negativos) para a saúde coletiva e a paz social do que os casos letais do coronavírus. Consequências totalmente diferentes (para pior!) do que pode acontecer nos Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra ou Japão, pelo simples fato de que são países ricos.

Só para ilustrar, ontem e hoje (26/03) recebi notícias de saques a estabelecimentos comerciais em Fortaleza e Teresina. A ABRASEL-CE (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Ceará) informa 5000 demissões no Ceará e 6000 em Pernambuco. Quem está com a razão?!

Como estudioso de sociobiologia me permitirei, para encerrar, breve exercício de fantasia! Do ponto de vista das formigas, uma das espécies sociais mais admiráveis que povoam a Terra, a espécie humana é de uma ironia atroz! Aparentemente forte, conquistou todos os ecossistemas terrestres; no entanto, frágil, cai de joelhos com facilidade diante de um ser, um vírus, difícil de classificar até como vivo, o que lhe tiraria o status de ser! As formigas devem pensar que os humanos poderiam voltar para a escola e aprender melhor o significado da relação entre seleção natural e seleção cultural.

Obs: Quem quiser se comunicar sobre temas desse artigo entre em contato no whatsapp 86 99598 2975.

Por: Prof. Dr. Geraldo Filho (UFDPar – 26/03/2020)
Edição: Jornal da Parnaíba

2 comentários:

Paje disse...

É meu professor, simplesmente o melhor.

Unknown disse...

Que desenho histórico!
Pra mim que comecei a estudar a filosofia agora,apenas dois anos e meio, veio à minha mente as teorias de alguns desses teóricos.

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