quinta-feira, julho 19, 2018

Idosa escapa de amputação ao fazer cirurgia pioneira de ponte de safena em Parnaíba

A aposentada Raimunda Paula de Moura logo a pós a cirurgia no Hospital Marques Basto.
Diagnosticada com aterosclerose severa na perna direita e correndo o risco de ter o membro amputado, a aposentada Raimunda Paula de Moura, 78 anos, foi submetida a um procedimento pioneiro realizado em Parnaíba, PI. A aterosclerose se caracteriza como uma doença vascular crônica causada pelo acúmulo de placas de gordura e outras substâncias nas paredes das artérias. Com o tempo, essa doença vai restringindo o fluxo sanguíneo para determinados órgãos corporais podendo causar infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), trombose intestinal e trombose nos membros inferiores, por exemplo. 
Dr. Elias Carvalho Magalhães Neto, responsável pela equipe que realizou a cirurgia de Dona Raimunda
Diabética e acometida com aterosclerose, dona Raimunda sofreu uma grave infecção em um dos dedos do pé direito por decorrência de um corte ocasionado enquanto ela cortava as unhas. Como o pé da aposentada tinha uma circulação precária, pois a Trombose Arterial estava bem avançada, em pouco tempo, a infecção piorou e quando a idosa procurou o hospital, o dedo já estava em estado avançado de necrose, o que os médicos chamam de gangrena. A alternativa dada inicialmente foi a amputação. No entanto, mesmo com a retirada do dedo, a infecção continuou avançando e menos de um mês após a cirurgia, ela precisou retornar novamente ao Hospital Estadual Dirceu Arcoverde (Heda), desta vez com complicações em mais dois dedos do mesmo pé. Ao avaliar o caso da paciente e requisitar um exame de Angiorressonância Magnética, que foi realizada após autorização da Direção do Hospital Dirceu Arcoverde, o médico cirurgião vascular que acompanhava o caso e que tem uma vasta experiência no assunto, Dr. Elias de Carvalho Magalhães Neto, conversou com a família da dona Raimunda e informou da possibilidade da realização de dois procedimentos na tentativa de evitar a amputação da perna da idosa, pois o exame havia detectado que as artérias da perna estavam entupidas da coxa até o pé.
Hospital Marques Basto, em Parnaíba
A primeira alternativa seria encaminhar a paciente para Teresina a fim de ser submetida a um Cateterismo para a desobstrução da perna por via Endovascular, realizando angioplastia e a colocação de Stent da mesma forma que é feito com os pacientes que apresentam Infarto Agudo do Miocárdio (IAM). Requisição essa, que foi feita de imediato. Entretanto, a idosa naturalmente entrou na fila do SUS e, de acordo com a planilha do Sistema de Regulação do Estado, ela teria que aguardar em uma longa fila para ser operada. Como o caso dela exigia urgência devido o rápido avanço da doença, a família buscou a segunda alternativa, que seria fazer a Revascularização do Membro Inferior através de uma cirurgia chamada de Bypass Fêmoro-Poplíteo, popularmente conhecida por Ponte de Safena da Perna, que seria realizada em Parnaíba, no Hospital e Maternidade Marques Bastos (SPMIP). Porém, mais uma vez, o quadro da idosa, que já era delicado, esbarrou em questões burocráticas, uma vez que o município de Parnaíba ainda não dispõe de nenhum convênio ligado ao SUS que possibilite a realização de tal procedimento.
Dona Raimunda Paula de Moura se recupera em casa e já caminha com ajuda de andador
Somando longos 14 anos de estudos, sendo oito deles, no Rio de Janeiro, entre a graduação em Medicina pela Universidade Gama Filho e uma Pós-Graduação em Terapia Intensiva, pela Universidade Veiga de Almeida; dois anos de Residência em Cirurgia Geral, pelo Hospital Regional do Gama e outros dois anos de Residência em Cirurgia Vascular no Hospital de Base, em Brasília, além de cursos de aprimoramento das técnicas em Medicina Intervencionista (Hemodinâmica) e Doenças Venosas, Dr. Elias, que é parnaibano, há oito anos retornou à sua cidade natal com o sonho, o desejo e a missão de mudar essa dura realidade enfrentada pelos pacientes diabéticos portadores de doenças vasculares. Ele relata que apesar das grandes dificuldades impostas no caminho, tem muita coragem e vontade de mudar esse cenário. 
Dr. Leonardo Correia, secretário municipal de saúde
Ao se deparar com a aflição da família, o médico se prontificou em ajudar e resolver o caso de dona Raimunda. Depois de 27 dias de internação no Heda, por meio de um esforço conjunto entre a equipe formada por Dr. Elias, Dr. Paulo Augusto - Cirurgião Geral e Dr. Samuel - Anestesista, com o aval da direção do SPMIP, composta por Mirócles Veras e pelo Dr. Edgard Veras, além da ajuda e intervenção do vereador Carlson Pessoa e do secretário municipal de Saúde, Leonardo Correia, finalmente a idosa foi operada no Hospital Marques Basto
Essa cirurgia pioneira ocorreu em Parnaíba no dia 14 de maio de 2018 sob a responsabilidade e execução de Dr. Elias, com duração de cinco horas e foi um sucesso. O cirurgião explica o método adotado. “O procedimento que consistiu no retorno da circulação utilizando um pedaço da veia safena, assim como se faz no coração para estabelecer o fluxo das coronárias, cria um novo caminho, permitindo que o sangue circule em torno da área bloqueada e consiga chegar na região que está faltando e precisando. Dessa forma foi possível salvar a perna e o pé da paciente, mas foi preciso amputar outros dois dedos necrosados”, salientou. Passado um mês e meio da cirurgia, dona Raimunda agora sente que o ferimento está cicatrizando e já consegue caminhar com o auxílio de um andador, um ato simples que ela temeu perder com a possibilidade da amputação de todo o membro inferior.

O drama sofrido por dona Raimunda traz um alerta para a grande necessidade da criação de um convênio entre o município e o Hospital e Maternidade Marques Bastos, instituição de saúde em Parnaíba que possui material para realizar esses procedimentos cirúrgicos. O SPMIP também é a única unidade hospitalar da cidade que tem o serviço de Hemodiâmica, local que dispõe das melhores condições necessárias para realizar a revascularização em pacientes que, por muitas vezes, a cirurgia é contra-indicada, além de realizar os exames preventivos e de acompanhamento. O número de idosos parnaibanos acometidos da doença chamada de pé diabético e de outras doenças vasculares como a trombose arterial é muito grande, sendo esta uma das principais causas de morbimortalidade e amputações entre essa faixa etária da população do litoral do Piauí.

Diante deste quadro alarmante, Dr. Elias espera que as autoridades olhem com mais atenção para o problema e tentem resolvê-lo da melhor e mais brevidade possível, pois isso traria uma grande mudança na saúde do parnaibano, aumentando a qualidade de vida e diminuindo o sofrimento de vários pacientes.

“Tratar um paciente idoso e, na maioria das vezes, já debilitado em outro município carrega em si um imenso contexto social, que envolve o deslocamento, a permanência longe da família e outros fatores que acabam afetando o tratamento. Tratar o paciente em seu município é essencial para a sua recuperação precoce, pois ele fará o tratamento junto de sua família. Isso conta muito. Talvez falte conhecimento da importância destes procedimentos através do SUS por parte de nossos gestores, mas esperamos que este quadro mude em breve”, finaliza o médico.

Por Luzia Paula | Edição: Jornal da Parnaíba
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