quinta-feira, abril 20, 2017

Delações da Odebrecht: os fatos e a desonestidade honestamente dita!

O País está estarrecido com as delações da Odebrecht. Muitos são os brasileiros que se acham idiotas com tanta roubalheira. Como é possível tantos delatores, com tanta desfaçatez, confessarem seus crimes como quem está falando de uma atitude normal? A honestidade com que falaram nas delações tanto impressiona quanto indigna a todos nós!

A isso tudo se junta o loteamento dos cargos públicos entre padrinhos políticos, que exigem de seus afilhados não só um pagamento pelo cargo que ocupam como também que fechem os olhos para o errado quando estiver em jogo o seu interesse político.

As delações dos executivos da Odebrecht mostraram o que já sabíamos, mas não era possível de ser provado: a corrupção no Brasil era um modelo de negócio nas contratações com governos, federal, estadual e municipal. Segundo essas delações, nos últimos 9 anos, a cifra pelo pagamento de propina aos políticos ultrapassa os 10 bilhões de reais.

E essa conta é dos corruptores, que confessaram ter distribuído toda essa grana em troca de projetos, facilidades, apoio ou para deixar políticos nas mãos da Odebrecht. É dinheiro público que poderia ter sido usado para construir escolas, postos de saúde, comprar ambulâncias e muito mais. Sabe quanto custa uma creche? R$ 1,9 milhão. O dinheiro da corrupção que a Odebrecht movimentou daria para construir 5.421 creches, para atender 867.360 crianças, segundo a Associação Contas Abertas.

O fato é que os políticos e os empresários estavam acostumados a viver nesse ambiente promíscuo, sequer imaginando como é viver em um ambiente realmente honesto e competitivo. A única vítima dessa história é a população, especialmente os mais desafortunados.

Bertrand Russell (1872-1970) foi o mais influente filósofo britânico do século XX, ele advertiu que quando se está estudando um fato histórico ou considerando alguma filosofia, pergunte a si mesmo, somente: Quais são os fatos? E qual é a verdade que os fatos revelam? Nunca se deixe divergir dos fatos pelo que você gostaria de acreditar ou pelo que você acha que traria benefícios às crenças sociais se fosse acreditado; olhe somente para quais são os fatos.

Comecemos por refletir sobre alguns fatos: (i) a Odebrecht “financiava” o poder político com quais recursos? Na realidade, leis foram compradas, campanhas financiadas e a empresa não doou nada, apenas repassou recursos públicos para bolsos privados de políticos e agentes públicos. Um sistema corrupto que desviou a possibilidade de o estado brasileiro prestar um serviço público de melhor qualidade ao seu povo: (ii) era só a Odebrecht? Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos coordenadores da força-tarefa do Ministério Público Federal, assinala que malfeitos atingiram “todos os níveis da federação, democraticamente distribuídos entre Eikes e Marcelos, entre todos que podiam pagar”. Ele avalia que “nada mais errado” é dizer que a Odebrecht é a única empresa que comprava o poder político. “Nem mesmo o setor de empreiteiras é o único, essa prática se espalha por todo espectro empresarial. Marcelo Odebrecht (ex-presidente do Grupo) saía por uma porta de um gabinete do poder, por outra entrava outro empresário”; (iii) o crime compensa, uma vez que os delatores terão suas penas reduzidas. Não é verdade. Imaginemos a hipótese de não termos o instrumento legal da delação premiada. Conseguiríamos algumas condenações de executivos da Odebrecht e de poucos funcionários públicos. Talvez Marcelo Odebrecht ficasse cinco anos em regime fechado, o que corresponde a uma pena de 30 anos de prisão – bastante alta para o padrão brasileiro. Mas não teríamos descoberto noventa por cento dos crimes revelados pelo acordo, e outros cinco por cento que o MPF desconfiava existir acabariam sendo arquivados por falta de provas. Ainda assim esses cinco por cento restantes teriam sido um belo resultado quando comparado com nossa história de impunidade. Seria melhor mesmo que o Mensalão, o mais importante caso em termos históricos até a Lava Jato. 

Impressiona-nos a fluidez e a precisão burocrática, com que sem-cerimônia que parece rotineira, quase cartorial, os envolvidos desfiam as irregularidades, listando-as, mostrando como funcionava o esquema criminoso. A sem-vergonhice já havia sido metabolizada pelo sistema, como se nada de mal ocorresse por lá, era “normal” comprar apoio; como se fosse natural que a Petrobras servisse a um esquema de poder e fizesse a felicidade material daqueles que estavam associados à quadrilha.

É do conhecimento do mundo mineral que este era o país da impunidade. Digo era, posto que vivemos um momento extraordinário da República. “Nunca antes nesse país” se prendeu tanto bandido, antes, impossível de se tascar a mão neles! A quantidade de imponentes corruptos que ainda vivem, ou viveram à larga antes de passar à outra vida, é infinda, como também grande e desejada é a descoberta de toda a pilantragem para que eles possam pagar pelos seus crimes, aqui mesmo! Assim seja!!!

Por: Fernando Gomes, sociólogo, cidadão, eleitor e contribuinte parnaibano.
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